AGOSTINHO DE HIPONA E O FRUIR EM DEUS

Em tempos tecnológicos e hiperconectados, fruir e desfrutar são ações raras, visto que é comum vermos pessoas nos lugares mais paradisíacos, conectadas no mundo virtual sem usufruir do ambiente. Este fato nos mostra como desfrutar de uma paisagem ou ambiente tem sido uma ação que não é tão vista hoje em dia.

Na vida, precisamos entender que algumas coisas usamos, como aquelas ferramentas úteis para alcançarmos um determinado objetivo, e outras desfrutamos ou fruímos, como Agostinho de Hipona (2002) coloca em seu livro A doutrina cristã. Usamos os utensílios (uti), os quais são objetos usados para conseguirmos alguma coisa e usufruímos (frui), ou seja, desfrutamos e amamos algo por causa dele mesmo. Agostinho de Hipona complementa:

“Fruir é aderir a alguma coisa por amor a ela própria. E usar é orientar o objeto de que se faz uso para obter o objeto ao qual se ama, caso tal objeto mereça ser amado. A uso ilícito cabe, com maior propriedade, o nome de excesso ou abuso” (2002, p. 34).

Santo Agostinho (2002) oferece uma ótima metáfora para as palavras fruir e utilizar. Imagine que você é um peregrino que vive infeliz, distante da amada terra. Em meio à peregrinação, você se sente miserável e anseia que os problemas se acabem para conseguir retornar à sua pátria. Entretanto, para isso ser possível, você precisaria de meios de transporte, sejam barcos ou carros, que serão usados para transportar você até a sua casa, para que assim você consiga desfrutar do lugar. Mas suponha que as trivialidades do caminho, a viagem ou as conduções usadas levem você a fruir destas coisas ao invés de apenas utilizar para chegar aonde você pretende ir, por causa disso, o viajante corre o risco de não desejar terminar a viagem uma vez que frui de algo que deveria apenas utilizar.

O mesmo exemplo podemos usar em nossa vida como cristãos, imagine que você tem inúmeras coisas que pode usar para aprender, crescer como cristão e pessoa ou para um determinado propósito. Contudo, imagine que, ao invés de usar estas coisas, nós começássemos a fruir delas. Caso isso aconteça, colocaremos as coisas, objetos ou conquistas no lugar de Deus. Santo Agostinho complementa:

“De tudo o que expusemos deduz-se que devemos gozar unicamente das coisas que são bens imutáveis e eternos. Das outras coisas devemos usar para poder conseguir o gozo daquelas” (AGOSTINHO, 2002, p. 57).

Fruímos apenas de Deus, é Ele que realmente amamos e desfrutamos, em nome de sua própria graça. Apenas o que é eterno e imutável, ou seja, Deus, nós podemos fruir; o resto utilizamos para conseguir fruir de nosso eterno Pai. Utilizamos Deus quando insistimos em querer usá-lo para os nossos objetivos. Mas fruímos Dele quando o adoramos partindo de quem Ele é. Não precisamos de mais nada quando temos Deus em nossa vida.  

Este conceito demonstra como a verdadeira felicidade vem de Deus. Ela parte de entendermos que, quando fruímos Dele, alcançamos a vida feliz, sendo que o homem incorre em um grande erro ao insistir em fruir de coisas passageiras e mutáveis ou mesmo em desfrutar ao invés de fruir de nosso soberano Pai.

Bibliografia

AGOSTINHO, Santo. A doutrina cristã: Manual de exegese e formação cristã. São Paulo: Paulus, 2002.

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