Início

  • ENGANADOS E ENGANADORES

         Uma das minhas características é ser questionador. Tenho que cuidar para não exagerar, mas acho que ser crítico é fundamental para que encontremos o equilíbrio, além de nos fazer crescer e até mesmo nos libertar. Acho que às vezes eu exagero, pois minha esposa diz que sou chato. Essa é uma das coisas que eu questiono. Não sou tanto assim; talvez ela não me compreenda.

         Brincadeiras à parte, acredito que seja importante questionarmos as informações que recebemos. Vivemos em uma época absurdamente dinâmica, onde o conhecimento e as informações se multiplicam de forma jamais vista. A palestrante internacional Leila Navarro fez um estudo sobre a informação e constatou que o conhecimento humano tem crescido em uma escala assustadora e jamais vista. O conhecimento humano dobra a cada 3 anos, e a perspectiva é que à partir de 2020 dobrará a cada 73 dias. Isso chega a ser praticamente inimaginável. Imagine que atualmente, em apenas 3 anos o homem adquire a mesma quantidade de conhecimento que obteve nos milhares de anos de sua existência. Atualmente, uma criança de 7 anos tem  a mesma quantidade de informações que os imperadores romanos adquiriam em toda sua vida. Esses dados nos deixam perplexos. Isso abre um leque muito grande no desenvolvimento da humanidade. Mas será que isso é bom?

         Como em tudo na vida, há os aspectos positivos e negativos nessa realidade. O positivo é que o homem é cada vez mais conhecedor do que está  a sua volta e tem mais ferramentas para construir uma realidade melhor. Entre os aspectos negativos, quero citar dois: recebemos muitas informações, mas qual a fonte delas? elas são fidedignas para que amparemos nossa vida nelas? Como dizem, o papel aceita qualquer coisa; há muitas informações que simplesmente são invenções, ou produto de uma mente vazia. O outro aspecto negativo é que recebemos tantas informações que não temos tempo para processá-las. Simplesmente “engolimos” tudo que vemos e ouvimos sem muito senso crítico.  É constatado que a atual geração apresenta uma grande dificuldade em leituras com conteúdo mais denso. O que lemos e vemos deve ser rápido, dinâmico e de fácil absorção, afinal, a fila anda. É fácil perceber que atualmente o homem é bombardeado de informações, conhecimentos, mas os pensadores são cada vez mais raros. É só nos aprofundarmos um pouco em algum assunto e veremos o conhecimento aguado da maioria das pessoas. O homem está se transformando em um mero repetidor de informações, e algumas vezes nem ao menos sabe o que está repetindo. Isso acontece em todas as áreas da vida, e infelizmente a espiritualidade não está fora dessa realidade.

         É comum vermos as igrejas cheias de pessoas que não pensam mais. Seguem quase que cegamente o que é pregado no púlpito. É claro que a vida cristã requer um compromisso e uma disciplina e não pode ser vivida como nós queremos, mas sim dentro dos preceitos estabelecidos por Deus. Se nos dizemos cristãos e discípulos de Cristo, devemos seguir seus ensinos. Mas aí que está nossa questão: quais são seus ensinos? O fato é que nas igrejas se ensina muita coisa que não encontramos na Bíblia e como a grande maioria das pessoas não consegue mais construir um senso crítico, a palavra do pastor  acaba sendo aceita como verdade divina  e inquestionável sem ao menos ser avaliada à luz da Bíblia. E quando é avaliada, é feito de forma errada pois a minoria sabe ler a Bíblia. Esse ensino, muitas vezes errado que recebemos acaba sendo reproduzido, formando novos discípulos de um falso ensino. Talvez você possa achar isso exagerado. Realmente corro o risco de exagerar em minha avaliação, mas vejo situações dessas quase que diariamente.

         Temos que tomar cuidado quando um pastor ou líder centraliza a liderança de uma igreja. Quando o nome do pastor se funde com a própria placa da igreja há um sério risco. O abuso da autoridade, mesmo sendo espiritual, é uma das causas do falso ensino. Em um culto presenciei um pastor afirmando que ele era a voz do Espírito Santo na vida dos fiéis e que estes deveriam obedecê-lo. Concordo que o pastor tem certa autoridade espiritual sobre os fieis, mas no sentido de orientar e não ordenando o que deve ou não ser feito. A questão é que, se o pastor, ou outro líder é a voz do Espírito Santo para minha vida, isso significa que eu não tenho o Espírito Santo, ou que ele não fala a meu coração? Essa idéia se aproxima muito da realidade de um intermediador entre os homens e Deus, como é por exemplo, no judaísmo. Esse é apenas um dos exemplos de ensinos faltos.

         Uma das estratégias que pastores usam para manter sua autoridade intocada, é supervalorizar seu status, citando versículos descontextualizados e chavões como “Ai daquele que tocar no ungido do Senhor”. Com ameaças até mesmo de maldições, ensinam o que bem entendem, e a grande maioria das pessoas crê passivamente no evangelho daquele pastor e às vezes nem conhece o evangelho do Senhor. Ensina-se absurdos tais como: há uma determinada roupa que deve ser usada para ir à igreja, há um estilo musical que agrada mais a Deus, que o shofar é um instrumento que atrai a presença do Espírito Santo, que tudo que há no “mundo” é mau, que não podemos ter amigos não cristãos, e absurdos ainda maiores tais como que o estudo da palavra diminui a fé, que o cristão não pode se divertir com esportes, música ou mesmo indo a uma praia e por aí vai. Outro ensino muito comum é aquele que vincula bênçãos divinas , curas e milagres ao dízimo e ofertas. Ouve-se de tudo.

         Talvez você e eu não creiamos nesses exemplo que citei, mas será que temos avaliado de forma crítica o que ouvimos dos púlpitos? Ultimamente vejo belas pregações, discurso convincentes que provocam choro, arrepios e motivação pessoal.  Mas é isso que a palavra de Deus provoca? Onde está o arrependimento, transformação de vidas, santificação e geração de frutos? Em Colossenses 2 vemos dois versículos muito interessantes. O versículo 4 diz: “Eu (Paulo) lhes digo isso para que ninguém os engane com argumentos que só parecem convincentes”. Já no 8 lemos: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos preceitos elementares deste mundo, e não em Cristo”. Esses versículos dizem tudo. O apóstolo Paulo pede para que tenhamos cuidado para não sermos escravizados por filosofias vãs e as tradições humanas. Quantas coisas que se fala por aí são baseadas em tradições da igreja? Se começarmos a ter uma visão mais crítica, veremos que é muito mais do que imaginamos e até mesmo aqueles mais esclarecidos acabam sendo enganados. Mais uma vez Paulo ensina que o cristianismo deve ser baseado em Cristo. Um dos chavões mais usados nas igrejas é que Cristo liberta. Concordo plenamente com isso, pois Cristo nos liberta inclusive do falso ensino e das enganações.

         De uma forma geral, a sociedade secular vê os evangélicos como alienados e descontextualizados do restante da sociedade. Em alguns casos até mesmo burros. Será que os evangélicos dão motivo para causar essa impressão? Sinceramente tenho certa dificuldade com pessoas que seguem cegamente alguém. Até mesmo Paulo, o maior apóstolo e teólogo da história pediu que as pessoas não cressem cegamente em seus discursos e que suas palavras sejam examinadas à luz da palavra de Deus. Em Atos 17,10-12 vemos que isso era praticado pela igreja de Beréia. Temos que tomar muito cuidado com líderes que não admitem ser questionados quanto ao que ensinam.

         O cristianismo, como o próprio nome diz, é baseado no ensino de Cristo. Que tipo de cristianismo temos aprendido e vivido? Que tipo de ensino temos passado adiante? Você tem o costume de avaliar o que aprende na igreja, mesmo que aquilo que ouve lhe pareça lógico? Veja que Colossenses 2,4 afirma que os falsos ensinos são convincentes. Quando há o ensino de heresias temos dois personagens. O Enganador e o enganado. Ambos tem sua responsabilidade. O enganado permite que seja enganado. O grande problema é que o ele acaba reproduzindo o ensino e passa a ser um novo enganador. É comum criticarmos duramente o líder que engana, mas a vítima também tem sua responsabilidade. Como discípulos de Cristo temos a obrigação de avaliar o que aprendemos através do que a palavra de Deus diz. Isso é muito mais do que só conferir o versículo que está sendo lido. Compare o que é dito com tudo o que a Bíblia ensina sobre aquele tema. Leia a Bíblia, aprenda a estudá-la, caso contrário você pode ser um dos fantoches nas mãos dos enganadores.

  • OS QUATRO CAVALEIROS

    E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer (Apocalipse 6:2).

    Apocalipse é um livro controverso, alvo de inúmeras especulações e interpretações mirabolantes. Principalmente quando se fala em fim do mundo. É evidente que nem todas as formas de interpretar estão certas, pois muitas são exageradas, mas no fim de tudo apenas uma estará certa.

    Tenho a minha própria forma de ver o apocalipse, e penso que ele não é um livro que apenas aborda o fim de tudo, ao contrário, com uma leitura detalhada veremos mensagens de esperança, da soberania de Deus, e seu livramento. Sem contar que alguma coisa provavelmente já vem acontecendo ao longo dos séculos. É por isso não vejo este livro como um oráculo do futuro e sim, um livro que descreve eventos que tem acontecido dos tempos antigos até agora. Quando falamos neste importante escrito temos que ter uma coisa em mente, que ele é um gênero literário chamado apocalíptico, que usa muitas imagens e simbolismos. E o grande desafio é saber até onde o simbolismo é literal ou figurativo (ZUCK, 2015, p. 193). O que vou expor é a minha visão deste importante livro e como eu interpreto esta passagem de Apocalipse 6:1-8

    Quando falamos em fim, em apocalipse, relacionamos mais com eventos que o próprio Deus planejou e arquitetou do que com eventos que nosso pai previu que o ser humano pecador e a sua própria maldade arquitetaria e é neste último viés que eu trabalho.

    Este texto de apocalipse fala de quatro cavaleiros que têm em sua mão o poder de causar um mal ou a destruição na terra. O primeiro deles é o cavalo branco, que carrega um cavaleiro com arco e sai vitorioso para vencer (Apocalipse 6:2), alguns teólogos defendem que o cavaleiro é o próprio Cristo, outros que é a vitória do evangelho ou talvez seja um dia de juízo através de uma força militar esmagadora (CARSON, 2012, p. 2147). O segundo é um cavalo vermelho e o seu cavaleiro tem o poder de fazer guerras (Apocalipse 6:4). O terceiro é um cavalo preto e o cavaleiro tem uma balança na mão denotando fome (Apocalipse 6:5). E o quarto é o cavalo amarelo e o seu cavaleiro é a morte, mas uma morte que parece combinar com a peste e os males dos três cavaleiros antes citados (Apocalipse 6:8). Quando eu leio o apocalipse, busco entender as mensagens por traz de todos os simbolismos, feras e eventos misteriosos, e não decifrar todas as imagens de forma literal.

    Apocalipse 6 fala de quatro cavaleiros, fazendo um paralelo com a profecia de Zacarias 1:7-17. Onde todos os cavaleiros trazem em sua mão eventos catastróficos. E são estes eventos que eu quero salientar, afinal, sempre considerei o livro de apocalipse como um importante material, que descreve a ação do homem e o livramento de Deus, a história acontecendo e o Deus todo poderoso intervindo. E quando falamos de todas as destruições que o livro relata, não excluo a responsabilidade e conduta humana como uma das possíveis ações destes cavaleiros, e não o agir deles de forma literal. Veja bem, não excluo a ação do mal, ou a mão de Deus, mas penso que o texto fala do resultado do pecado a da conduta humana no mundo e a intervenção de Deus após isso.

    Olhe em volta, é muito lixo jogado por pessoas que nem ligam para o meio ambiente. É muita corrupção, praticado por pessoas que não estão nem aí com o povo. A natureza esta sendo ceifada como se não houvesse mais amanhã, e países ricos olham para regiões pobres, onde pessoas não tem o básico para se alimentar, e não sentem o mínimo de remorso por todos eles. Aí um cidadão lê este trecho de apocalipse, esperando que Deus mande estas catástrofes todas para mostrar o seu poder, mas este mesmo cidadão se esquece que estas catástrofes já são visíveis no mundo há muito tempo.

    Penso que a crise e o desemprego não está só no Brasil, o céu também esta mandando funcionários embora. Afinal, quem precisa de cavaleiros do apocalipse quando temos os seres humanos e suas formas destrutivas de pensar? O fim esta próximo como muitos proclamam, mas este fim é produto de nossas próprias mãos. E cuidar da criação, valorizar o ser humano e o ajudar com seus problemas, pobrezas e desilusões, não está mais na pauta humana.

    Muitos esperam estes cavaleiros aparecerem para se prepararem para o fim, mas não ouvem o barulho dos seus cascos rondando a terra na forma de egoísmo desenfreado. A Bíblia diz que no fim dos tempos o amor de muitos esfriará (Mateus 24:12), e isso é muito claro nos dias de hoje, onde poucos realmente sabem o significado desta palavra. Se você esta curioso esperando sinais do fim, tentando enxergar cavalos e cavaleiros, olhe em volta, olhe a natureza, as guerras travadas em nome do egoísmo. Ou sinta como as pessoas se comportam no trânsito e nas ruas. Consumindo, desmatando e poluindo. Se você procura estes quatro cavaleiros, sugiro que pare e reflita e se for preciso se olhe no espelho. Provavelmente, um deles estará refletido diante de você.

    BIBLIOGRAFIA

    CARSON. DA. Comentário bíblico vida nova. São Paulo: Editora Vida Nova, 2012.

    CHAMPLIM, RN. O Novo Testamento interpretado Versículo a Versículo. São Paulo: Editora Hagnos, 2014.

    ZUCK, Roy, B. Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro: Editora Cpad, 1994.

  • DEUS: AMOR OU JUÍZO?

         Fui criado em berço cristão e isso é um privilégio em diversos aspectos. Mas os tempos eram outros e me foi apresentado o “Deus juiz” e não o “Deus pai”. Isso trouxe marcas que irão me acompanhar para o resto da vida. Algumas dessas marcas são boas enquanto que outras nem tanto. Lembro muito bem que, quando criança, antes da semana de provas eu era o “melhor” cristão do planeta, afinal se eu me comportasse, Deus me ajudaria nas provas; caso contrário, ele me castigaria por minha desobediência. Olho para trás e dou risada disso, mas essa foi uma das heranças do “Deus juiz”. De um lado ouvimos que Deus é amor e de outro que ele é justiça. Afinal, como podemos entender essa questão?

         Primeiramente devemos entender que Deus é o único ser perfeito no universo. Ele é pleno em todos os seus aspectos. Ele possui diversos atributos: Deus é amor, é misericordioso, é justo, é onipotente, onipresente entre outros inúmeros atributos. Nós, homens, também possuímos alguns desses atributos. Por exemplo: temos a capacidade de amar, de ser misericordiosos, temos senso de justiça e por aí vai. Mas é claro que somos limitados pela imperfeição humana e também não termos a grandiosidade de Deus. Dessa forma, nossos atributos são corrompidos por nossa imperfeição e pela limitação que temos, e o amor, a justiça humana, assim como os demais atributos, são muito aquém da realidade divina.

         Um pensamento que é comum encontrarmos nas igrejas, é que no Antigo Testamento Deus é juiz enquanto que no Novo Testamento ele é amor e graça. Será que isso é verdade? O que ocorre, é que Deus se revela da forma que o homem possa compreendê-lo, o que pode mudar de uma época para outra. Mas Deus é o mesmo tanto no Antigo assim como no Novo Testamento. No Antigo ele era juiz, mas também amor e graça, assim como no Novo Testamento. Mas parece que hoje a mensagem dominante é o Deus amor, e a sua justiça simplesmente é esquecida ou até mesmo é desconhecida.  O que percebo é que o Deus de amor, o “paizinho” é pregado cada vez mais nas igrejas. Isso não está errado, pois ele mesmo se apresenta como pai, mas é relativamente raro ouvirmos uma mensagem que denuncia o pecado e propõe o arrependimento e mudança de vida. Geralmente a pregação do paizinho, da graça exageradamente enfatizada, em detrimento do juízo, gera cristãos descomprometidos com o reino de Deus. Não acho que devemos pregar o juízo de forma a assustar as pessoas e fazer com que crianças sejam mais comportadas nas semanas de prova, mas devemos pregá-lo como ele é. O fato é que vejo muitos cristãos que não tem o mínimo compromisso com a santidade. Provavelmente em poucos momentos da história vemos uma geração com tão pouca reverência e temor a Deus como a atual. Durante os cultos, vejo pessoas batendo um belo papo, assistindo jogos de futebol no celular, acessando facebook e até mesmo jogando. É assim que estamos cultuando ao nosso Deus? Sinceramente acho que se esse é o nosso comportamento durante o culto ao Senhor, é melhor que fiquemos em casa. Mas afinal, Deus não é Pai e ele não nos aceita assim, e quer que nos sintamos bem na sua casa?

         Geralmente quando o ser humano vive em um extremo e percebe isso, ele não tende ir para o ponto de equilíbrio, mas sim para o extremo oposto. Por exemplo: se uma pessoa é dada a muita bebida alcoólica, ao se converter provavelmente ela vai achar que seja pecado degustar uma taça de vinho, pois álcool é pecado. Somos “oito ou oitenta”, e encontrar o equilíbrio nem sempre é algo fácil. Pode não ser fácil, mas é o grande segredo para termos uma vida saudável em todas as áreas da vida, inclusive na espiritual. No assunto que estamos abordando, acontece a mesma coisa. Muitos cristãos vivem um cristianismo legalista, muito parecido com o próprio judaísmo, enquanto que no outro extremo, encontramos aqueles que relativizam muito os princípios de Cristo. O primeiro caso geralmente se tem o entendimento de Deus como o juiz, enquanto que no segundo como paizinho, o Deus do amor que nos entende e nos aceita de qualquer forma. Ambos os casos estão aquém de quem Deus realmente é. O ponto de equilíbrio é entendermos que Deus é plenamente juízo mas também plenamente amor.

         Nos relatos do Antigo Testamento, percebemos que o juízo de Deus realmente pesava mais sobre seu povo do que no Novo Testamento. Há várias passagens que relatam a desobediência do povo, que é severamente punido, algumas vezes com a própria vida. Temos certa dificuldade de enxergar um Deus amoroso em episódios como esses, mas isso não significa que Deus não tratava seu povo com amor. A vida de Davi é um dos exemplos de como Deus agia com graça. Davi cometeu muito erros, sendo alguns deles muito graves. Naquela época o adultério era punido com pena de morte. Davi adulterou, mas diante de seu sincero arrependimento, além de perdoar o pecado, Deus poupou sua vida. Esse é apenas um dos inúmeros exemplos do Deus amoroso e gracioso no Antigo Testamento. Ou seja, vemos que no Antigo Testamento Deus agia com justiça, mas também com amor e graça.

         No Novo Testamento, onde muitos entendem que não há lugar para o juízo mas somente para a graça, também vemos esses dois aspectos de Deus. Na mensagem de Cristo, o “olho por olho, dente por dente” foi substituído pelo “se alguém lhe bater, dê-lhe o outro lado da face” e pelo amor ao inimigo. A essência da mensagem de Jesus é o amor. Amar Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O amor de Deus é demonstrado da forma mais visível, quando  ele enviou seu filho para viver entre os homens, morrer de forma muito sofrida com o intuito de salvar a humanidade. Esse é o maior gesto de amor e graça da parte de Deus. Muitas vezes isso nos faz esquecer do juízo de Deus. No quinto capítulo do livro de Atos encontramos o relato de Ananias e Safira. Trata-se de um casal de cristãos que venderam sua propriedade, ficaram com parte do dinheiro da venda e entregaram o restante aos apóstolos dizendo que se tratava de todo o dinheiro arrecadado na venda. Eles não estavam errados em ficar com parte do dinheiro e nem não eram obrigados a dar o dinheiro para os apóstolos. A questão é que eles mentiram para a igreja; mentiram para Deus. Pedro recebeu a revelação do Espírito Santo do que estava acontecendo, os confrontou, e ambos, Ananias e Safira, caíram mortos. Aqui vemos o juízo de Deus pesando na vida de um casal de cristãos. Sinceramente não sei por que Deus agiu assim se normalmente não fazia mais isso depois da vinda de Cristo, mas particularmente acredito que foi uma forma de Deus dar um recado que ele é o mesmo. Não é porque vivemos na era da graça que podemos brincar com as coisas de Deus.

         Deus continua sendo plenamente amor e plenamente justiça. Gosto muito do livro de Gálatas e no capítulo 5 vemos algo interessante. Cristo pagou o preço para dar liberdade aos que o seguem. Ele liberta do peso da lei, do peso do pecado e agora todo aquele que aceita a Cristo como o Messias ganha a liberdade em Cristo.  Deus vem de encontro ao homem pagando um preço inimaginável para tê-lo a seu lado. Algo que nem sempre percebemos, é que Jesus fez todo o sacrifício para que Deus nos tivesse a seu lado. Isso é muito mais profundo do que somente livrar-nos do inferno. Estamos libertos do jugo da lei e também do jugo do pecado. Esse é o Deus de amor se manifestando a seu povo. Mas no mesmo capítulo de Gálatas, algum versículo adiante já depois do relato sobre a liberdade que Cristo proporciona aos remidos vemos a advertência àqueles que rejeitam a Deus, praticando o que é chamado de obras da carne. Ali o juízo de Deus está claro quando lemos que todos que praticam as obras da carne não herdarão o reino de Deus. Estarão separados de Deus por toda eternidade. Em Mateus 7 vemos que muitos dos que profetizaram em nome de Deus, realizaram milagres e até expulsaram demônios, não tem parte com Deus por praticarem o mal. Esses são apenas alguns dos exemplos do juízo de Deus relatados no Novo Testamento. Acho que é algo tão evidente que nem precisamos citar ou estudar o Apocalipse onde há o relato do juízo final.

         No Brasil há o senso comum de que Deus é amor, ele é Pai e como tal ele nunca condenaria ninguém. Essa é uma máxima da teologia do universalismo, ou seja, o amor de Deus é tão grande que no final ele salvará a todos. Lendo o evangelho todo, não consigo crer dessa forma. O amor de Deus é algo muito marcante, mas ele não omite o juízo. Da mesma forma o juízo divino também não anula seu amor. Como A realidade de Deus é muito além da nossa, talvez não conseguimos compreender esse conceito em sua totalidade, mas devemos ter uma vida de equilíbrio. Da mesma forma que os pais amam seus filhos e quando necessário eles os disciplinam, o que é um juízo, Deus ama a todos os homens, mas as atitudes destes não passarão desapercebidas. Acredito que todo aquele que entende esse equilibro entre o amor e o juízo de Deus, refletem isso na forma em que vive e sabe que suas atitudes e a própria vida serão julgadas pela perfeita justiça do amor e da graça de Deus.

  • A QUEDA

         Um dos assuntos que mais chama minha atenção na história da humanidade é a queda do homem. Encontramos esse relato bíblico em Gênesis 3. Trata-se de uma história muito conhecida, mas que é permeada de detalhes que dificilmente são mencionados em estudos ou pregações. Acho que olhando para esse texto com mais atenção, muitas questões tornam-se mais claras e passamos a mudar nossa ótica em alguns aspectos, compreendendo melhor os planos e atitudes de Deus.

         Adão e Eva viviam no paraíso e este era perfeito. Não havia pecado e conseqüentemente também não havia morte.  Há teólogos que entendem que a imortalidade era do espírito e não do corpo físico. Particularmente entendo que a imortalidade se estendia ao corpo físico, pois o homem era perfeito. A degeneração física e as doenças não existiam, pois é herança do pecado. Além disso, em Gênesis 1,30 vemos que Deus criou as plantas para o alimento de todo a todos os seres que tem fôlego de vida. Ou seja, segundo esse relato, todos os animais seriam vegetarianos. Isso pode ser um indício que não havia morte, já que para que o homem, ou algum animal, se alimente de carne é necessária a morte de outro ser. O fato é que a criação era perfeita.

         Aprendemos que Deus colocou o homem no paraíso, e lá, no centro do jardim, havia a árvore da vida. Além desta, também havia a árvore do conhecimento do bem e do mal, sendo esta, a única proibição para o homem. Adão e Eva não poderiam alimentar-se do fruto desta árvore, pois a partir do momento que dela comessem, eles herdariam a morte. A serpente enganou Eva oferecendo o fruto da árvore proibida. Ela cedeu, experimentou do fruto e ofereceu a Adão que aceitou. Dessa forma o pecado entrou no mundo. Como castigo, eles perderam a imortalidade e foram expulsos do paraíso. Deus colocou um anjo como guardião do Éden, que impedia que eles voltassem ao paraíso. De forma bem resumida, é assim que esse episódio nos é ensinado. Isso não está errado, mas fica muito aquém do que realmente aconteceu e daquilo que nos impacta até os dias atuais.

         Na realidade, a queda do homem é a maior tragédia da história da Terra. O homem herdou muito mais do que a perda da imortalidade. A ordem natural da criação se perdeu e o equilíbrio e harmonia que havia no paraíso foram transformados em um caos. A natureza começou a sentir os efeitos da queda e toda a criação passa a conviver com tragédias, sofrimento, dor e morte. Mas quem pagou o preço mais alto foi o próprio homem. Ele que fora criado conforme a imagem e semelhança de Deus, e com a queda foi destituído da glória de Deus. Além da perda da imortalidade, o homem também perdeu muito dos atributos que Deus lhe dera. Sua mente passou a ser muito limitada, seu corpo decaído; ele ficou muito aquém do que ele era antes. A única coisa que ele ganhou com o pecado, foi o conhecimento do mal. A partir da queda, ele não passa de uma caricatura mal feita de quem realmente era. Mas a pior de todas as conseqüências do pecado é a separação de Deus. Agora ele estava sozinho, colhendo a amargura daquilo que ele plantou. Ele perdeu o paraíso e estava proibido de voltar, e cedo ou tarde iria morrer.

         O castigo de Deus parece ser duro demais e até mesmo injusto. Porém, olhando para esse evento de forma mais atenta, percebemos que aquilo que pode parecer castigo divino, na realidade é a libertação e a solução para o problema que o homem criou. Iniciemos essa análise pelas duas árvores descritas no Gênesis. A primeira delas, plantada no centro do Éden, é a árvore da vida. Adão e Eva tinham acesso a ela, ementavam-se dela. Trata-se da árvore da vida eterna. Enquanto se alimentassem dessa árvore nunca morreriam. Há aqueles que entendem que a árvore da vida se trata de Cristo, afinal ele que é a essência da vida e ele é a própria vida eterna, particularmente acho essa idéia interessante. Havia também a árvore do conhecimento do bem e do mal. Até é difícil para imaginarmos a condição humana na qual não se conheça o mal. Estranho ou não, essa era a realidade de Adão e Eva; eles só conheciam o bem.  Deus conhecia o bem e o mal, mas não experimentou o mal para conhecê-lo. Mas o homem só poderia conhecer o mal se o experimentasse, e era justamente disso que Deus queria privá-lo. Um aspecto interessante, é que Deus quis privar o homem de conhecer o mal, mas não o impediu daquilo que realmente queria. Ele recomendou, ou ordenou que Adão e Eva não se alimentassem da árvore, mas deixou-a no jardim. Deus ama tanto o ser humano que lhe dá a opção da escolha. Essa é a verdadeira liberdade. Não existe liberdade quando não há opção de escolha.

         Com muita astúcia, a serpente induziu Eva a experimentar do fruto da árvore do bem e do mal. Eva queria ser conhecedora do bem e do mal. Ela experimentou do fruto e deu-o a Adão que também tomou-o para si. As conseqüências desse ato já foram citadas, mas eu gostaria de enfatizar uma dessas conseqüências; a morte. O homem não foi criado para morrer, e é justamente por isso que temos tanta dificuldade de aceitá-la e de lidar com ela. Apesar de talvez ser a maior das nossas certezas, ela vai contra a ordem natural da essência da criação. Mas se refletirmos sobre tudo o que foi visto, a morte não é um castigo pelo pecado cometido, mas sim uma providência de Deus para que o homem não vivesse preso à sua imperfeição por toda eternidade. Será que conseguimos nos imaginar vivendo eternamente aqui na terra, como aquela caricatura descrita anteriormente e, como se não bastasse, separados de Deus? Isso sim que seria um castigo demasiadamente cruel. Dessa forma fica mais fácil entender a morte física não como castigo divino, mas como uma providência de Deus, um recurso, que nos proporciona a possibilidade de voltarmos a ser aquilo que Deus sempre quis. Talvez isso não seja novidade para você, mas percebo que a maioria dos cristãos tem um entendimento muito simplista. O que geralmente é ensinado que a morte é um castigo decretado por Deus e pronto; só isso. Para aqueles que nunca pensaram além do que usualmente é ensinado, tudo isso pode parecer um tanto quanto estranho, ou até mesmo herético. Lendo Gênesis 3:22-24 vemos que exatamente essa idéia. No versículo 23 está mais do que claro que a expulsão do paraíso não foi um mero castigo ou uma atitude birrenta da parte de Deus, mas sim para que o homem não se alimentasse da árvore da vida e não vivesse para sempre. Se Deus não tivesse feito dessa forma, o homem continuaria a alimentar-se do fruto da árvore da vida, e mesmo imperfeito e mau, viveria eternamente na terra.

         Tudo o que Deus faz tem o objetivo de alcançar o homem e reconduzi-lo àquilo que ele perdeu. Textos como esse nos evidenciam o infinito amor que Deus tem pela humanidade. Ele vê realidades muito além da nossa percepção e por isso mesmo, muitas vezes não o entendemos. Para nós, a morte é um castigo; para Deus é uma ferramenta através da qual temos a possibilidade de nos livrarmos da imperfeição que carregaríamos por toda eternidade. Só compreenderemos essas verdades, se investirmos em nosso relacionamento com Deus. Quanto mais investirmos em nosso relacionamento com Deus mais veremos a vida, e tudo que se relaciona com ela, através da ótica de Deus.

         A queda de Adão e Eva é algo em que não podemos interagir. Eles caíram e não podemos fazer nada para mudar essa realidade. Mas podemos ter atitudes que mudem a nossa história. Acho que o grande erro de Eva foi tirar os olhos de Deus e dar ouvidos à serpente. O que começou como uma mera conversa terminou na maior tragédia humana. Não dê ouvidos ao diabo, pois ele irá te seduzir. Ele tem nos seduzido diariamente. Ao invés de dialogar com o diabo, pratique o que lemos em Colossences 3,1: procure as coisas do alto, pois assim Deus te dará o entendimento, e esclarecerá muitos dos mistérios que o homem caído não entende. A partir do momento em que temos nossos olhos naquilo que vem do alto, fazemos da morte um passo para nossa libertação daquilo que somos, rumo ao que Deus quer, e não somente um castigo fruto da ira de Deus. Entender o que a é a morte, nos ajudará a entender o sentido da vida.

     

     

     

  • SALMO 23

         Um dos textos mais emblemáticos de toda a Bíblia é o Salmo 23. Dificilmente há alguém no mundo ocidental que não o conheça. Até mesmo os ateus conhecem pelo menos alguns de seus versículos. Trata-se de uma belíssima poesia do rei Davi, que descreve o cuidado que Deus tem para com os seus filhos.

     

    O Senhor é o meus pastor e nada me faltará

    Ele me faz repousa em campos verdejantes.

    Leva-me para junto das águas de descanso;refrigera a minha alma.

    Guia-me pelas veredas da justiça por amor a seu nome.

    Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,

    não temerei mal algum, porque tu estás comigo;

    o teu bordão e o teu cajado me consolam.

    Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários,

    Unges-me a cabeça com óleo;

    o meu cálice transborda.

    Bondade e misericórdia

    certamente me seguirão todos os dias da minha vida;

    e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.

     

         Essa poesia é muito rica, e o rei Davi compara Deus com um pastor que cuida de seu rebanho de ovelhas. Ele entendia muito bem desse assunto, visto que antes de ser coroado ele trabalhava como pastor e conhecia muito bem suas funções. Para extrairmos tudo o que Davi quis expressar através desse Salmo, devemos entender mais sobre o dia a dia de um pastor, do rebanho e também da cultura da época para entendermos, por exemplo, o que
    Davi quis dizer quando se referiu à mesa dos adversários, da unção com óleo etc. Mas nosso objetivo não é fazer uma análise profunda, mas sim uma pequena reflexão sobre algumas questões.

         A mensagem básica é a provisão e o cuidado de Deus. É confortante, e acho que todos querem ouvir uma mensagem dessas; afinal queremos ser cuidados por um Deus desse. Nesse Salmo vemos a provisão de Deus: ele nos sustenta, nos dá descanso, proteção, conforto emocional, é bondoso, misericordioso e justo, enfim, nada nos faltará.  Quem não quer um Deus assim? Mas tem um detalhe que a maioria não percebe ou talvez não queira perceber. Queremos que Deus seja esse pastor que cuida de nós, mas será que queremos ser suas ovelhas? Será que queremos ter atitude de ovelhas?

         De uma forma geral o homem gosta de receber o bônus, mas não gosta do ônus. Não gostamos de pagar o preço daquilo que queremos. Ficamos felizes quando chega o final do mês e sai nosso salário, mas são poucos que realmente gostam de trabalhar e o fazem motivados e da melhor forma que podem. Isso se reflete em várias áreas da vida, inclusive na espiritual. No fundo a grande maioria de nós gostaria de ter um gênio da lâmpada, que fizesse tudo o que gostaríamos, ao invés de um Deus. Mas a vida não é como gostaríamos que fosse, e sim como ela é. Atentem ao fato que Davi se refere ao pastor como sendo seu Senhor. Não prestamos muito atenção a esses detalhes. No nosso contexto, a palavra “senhor” é utilizada para referir-se a alguém de forma respeitosa. Mas a origem da palavra, e da forma que é empregada na Bíblia, é muito mais profundo que isso. Senhor é nada mais, e nada menos que dono. Refere,por exemplo, aos donos dos escravos, às pessoas que tem o direito de posse de outro. As ovelhas do salmo 23 são de posse de seu pastor, e elas se comportam como tal. O pastor é o dono, mas não há aquela relação de opressão.

         O verdadeiro pastor ama suas ovelhas. Cuida delas não só por elas representarem seu “ganha pão”, mas porque ama cada uma delas, e quer lhes dar qualidade de vida. Como pastor, ele sabe o que é melhor para elas. Sabe onde se encontram os melhores pastos, onde há água em abundância, sombra e onde está o perigo a ser evitado. Para usufruir de todos esses benefícios, a ovelha deve se deixar guiar pelo pastor. É aí que começam nossas dificuldades. Queremos que Deus cuide de nós, mas na grande maioria das vezes queremos andar nos nossos caminhos. Queremos o favor de Deus, fazendo tudo da nossa forma. E não é assim que as coisas funcionam. Para usufruirmos dos benefícios de ser pastoreados por Deus, temos que aceitar seu pastoreio. A tão falada conversão é exatamente isso: desistir da própria vontade, dos próprios caminhos e deixar que Deus nos guie, mesmo que os caminhos por onde ele nos leva pareçam que não foram feitos para nós. Não dizemos que entregamos nossa vida para Deus? Sendo assim, nossa vida não é mais nossa e sim dele, e como tal ele faz de nós aquilo que ele achar melhor. Isso é a atitude de alguém que chama Deus de Senhor. Da mesma forma que um pastor tem uma mente muito superior à mente de seu rebanho, estamos muito aquém da realidade divina. A questão é: você quer ser uma ovelha? Você se comporta como uma delas? Você tem todo o direito de andar por onde bem entender, mas não espere que teus caminhos te levem para onde Deus quer.

         Um amigo meu teve o privilégio de conhecer Israel, a Palestina, e viu o trabalho de um pastor. Enquanto o pastor cuidava de suas ovelhas, esse amigo começou a conversar com ele, e é claro que o assunto eram as ovelhas. Curioso, ele perguntou como o pastor conseguia que elas atendessem a seus comandos. A resposta foi: “Elas conhecem a minha voz”. Ele chamou uma das ovelhas pelo nome, e imediatamente ela atendeu ao chamado. O pastor disse que, se meu amigo a chamasse ela não iria atende-lo pois a ovelha saberia que não é a voz do seu pastor. Meu amigo achou intrigante, chamou a mesma ovelha e ela não atendeu ao chamado. Para que sejamos pastoreados por Deus, devemos conhecer e ouvir sua voz. A vida é uma verdadeira Torre de Babel, e muitas vozes nos chamam e querem ditar o caminho a ser seguido. Mas somente uma delas é de Deus. Será que reconhecemos a voz de Deus? Sabemos quem é nosso pastor? Isso pode parecer algo muito vago, muito abstrato, mas o fato é que a verdadeira ovelha realmente reconhece a voz de seu pastor. É claro que há situações onde nossas emoções podem nos atrapalhar e nem sempre é fácil discernir a vontade de Deus. Mas creio que Deus, nosso bom pastor, sempre responde a nossos clamor. Mas só reconheceremos sua voz se conhecermos o próprio Deus. Se não o conhecermos intimamente, não conseguiremos reconhecer sua resposta, e damos com os burros na água.

         Essa é uma reflexão muito simples e não traz nada de novo. Mas talvez a própria simplicidade do Salmo 23 o torne tão fascinante. A mensagem básica de Deus também é simples. Ele quer pastorear a tua e a minha vida, mas para isso temos que ser ovelhas do rebanho dele, e não aquelas que vivem desgarradas que só voltam correndo quando estão prestes a serem devoradas por lobos. Com certeza ele também cuida dessas ovelhas, mas muitas vezes elas estão tão longe que não encontram mais o caminho que os leve de volta ao pastor, ou nem se lembram mais dele. Essas estão por conta própria. A melhor forma de evitar que isso aconteça, é conhecer Deus mais e mais. A cada dia que passamos com Deus, o conhecemos mais um pouco, e quanto mais o conhecemos mais fácil reconheceremos sua voz. Seja uma ovelha de Deus e desfrute tudo aquilo que ele  te oferece no Salmo 23.

  • QUANDO O SONHO ACABA

          A muitos anos, durante uma pregação, ouvi uma história. Pelo que foi dito pelo pastor, trata-se de um acontecimento verídico mas caso não seja é uma ótima ilustração. Uma mulher temente a Deus, com uma vida exemplar, tinha um filho pequeno que adoeceu. A situação do menino foi piorando e ela orava para que ele fosse curado. Mas chegou a um ponto em que os médicos lhe informaram que não havia mais o que fazer e em alguns dias o menino morreria. Ela não aceitou, e em uma oração que fez ”pressionou” a Deus, se é que podemos fazê-lo, dizendo que se ele não curasse seu filho ela romperia com Deus, abandonaria sua fé e viveria sua própria vida. Iria desistir de tudo. O menino começou a melhorar e em pouco tempo estava bem. Para os adeptos da teologia do triunfalismo isso é um exemplo como devemos determinar as coisas para Deus. Mas o tempo foi passando e na adolescência o menino começou a ter amizades não muito recomendáveis. Ele se desviou e acabou sendo morto pela polícia em um assalto que estava praticando. Enquanto a mãe chorava sobre o caixão, Deus lhe falou:

    “Minha filha, eu já sabia e era disso que eu queria te privar anos atrás, mas você não entendeu”.

    Nunca mais esqueci essa história, com a qual aprendi que os caminhos de Deus sempre são melhores que os nossos. Com certeza nem sempre é fácil aceitar alguns eventos imputados pela vida. Não sou determinista e não creio que tudo o que acontece na vida seja da vontade de Deus. Se fosse assim eu teria que aceitar o fato que o pecado e o mal sejam da vontade de Deus. Vivemos num mundo caído onde satanás age intensamente e estamos vulneráveis aos infortúnios inerentes a vida. Mas há situações, como a dessa mulher, quando viu o filho doente, onde parece que chegamos ao fim da linha. Nossas esperanças se esvai, não vemos soluções e o sonho acabou. Não precisamos nos sentir o pior dos seres humanos quando isso acontece. Não somos perfeitos e Deus nem espera que o sejamos. O que ele espera é que confiemos nele. Na Bíblia vemos vários personagens relevantes que passaram por crises dessa natureza. Um dos exemplos foi Pedro. Em pelo menos uma ocasião vemos que seu sonho acabou. Sugiro que leiam os primeiros catorze versículos de João 21. Vemos um relato da aparição do Jesus ressurreto aos discípulos.

    Vamos voltar ao tempo e entender tudo o que se passou na cabeça de Pedro, e provavelmente outros discípulos, quando o sonho acabou. Durante séculos o povo judeu aguardava seu libertador, o Messias. Eles ansiavam por isso de forma intensa. Mas eles aguardavam o libertador político, que os livraria do domínio romano. Foi por isso que nem todos reconheceram que Jesus era o prometido messias, pois ele disse que sua missão era outra; seu reino era outro. Pedro foi um daqueles que seguiram os passos de Jesus por aproximadamente três anos. Foi muito mais do que seguir os passos. Os discípulos abandonaram tudo, sua vida, sua profissão, para viver em função do Messias. Foram três anos andando junto, compartilhando a vida e aprendendo uma nova realidade com o próprio filho de Deus. Eles presenciaram inúmeros milagres e maravilhas. Provavelmente muitos mais do que a Bíblia relata. Além disso, ficaram maravilhados com suas palavras de sabedoria e profundos ensinamentos. Jesus sempre afirmou que veio para resgatar o homem, e quem o seguisse teria a vida eterna. Jesus falava e fazia acontecer. Será que conseguimos nos imaginarmos no lugar de Pedro? Tente imaginar; ele fazia parte do grupo que vivia com o Messias o filho de Deus que revolucionava o mundo.  Mas, literalmente, da noite para o dia o Messias, o filho de Deus, o libertador e salvador é morto. O libertador morreu; o sonho acabou. Será que conseguimos imaginar o que se passou na de Pedro e dos demais discípulos? Acho que vieram muitas dúvidas. Será que ele realmente foi o filho de Deus? Se era, como que ele morreu? Como pode o Messias morrer antes de libertar seu povo? O fato é que na narração de João, depois da morte de Jesus os discípulos voltaram a viver sua vidinha de três anos atrás. Voltaram a pescar, pois tudo não passou de um sonho que acabou. Mas nesse momento Jesus, que ressuscitou aparece para eles e o restante da história nós conhecemos muito bem. O sonho não acabou.

    Quantas vezes algo similar acontece conosco? Há um ditado, com o qual concordo quase que totalmente, que afirma que nossa decepção é do tamanho da nossa expectativa. Nossa decepção é do tamanho do nosso sonho. Então devemos parar de sonhar para não nos decepcionarmos mais? Não, pois acredito que quem desiste de sonhar está abrindo mão da vida. Deus nos criou com essa característica da mesma forma que ele sonhou com a tua e a minha vida, podemos e devemos sonhar. A questão é que devemos aprender a sonhar. Acredito que o grande desafio, e também segredo, para entendermos o que seja a vida com Deus, e assim ter os sonhos corretos, é ter uma visão concreta do reino de Deus. Só teremos uma idéia sólida sobre o reino se praticarmos o que o apóstolo Paulo recomendou na carta aos Colossenses. “… buscai as coisas do alto…” (capítulo 3 vs 2). Se vivermos a vida na perspectiva humana, colheremos frustrações uma após a outra, pois não fomos criados para viver conforme nossa vontade, mas sim para viver a vontade de Deus. Na maioria dos casos vivemos muito mais voltados ao terreno do que ao celestial, trocando o eterno pelo temporal. Talvez foi isso que aconteceu com a mulher  que citei no relato inicial. Em um momento tão difícil, na iminência de perder seu filho com aquela terrível doença, ela agiu olhando para si, para o finito e esqueceu de pedir que Deus fizesse de acordo com o que ele ache melhor. O reino de Deus não está em um paraíso distante aonde só chegaremos depois da morte. Lá ele se consumará, mas o reino começa aqui e agora. Na própria oração do Pai Nosso, oramos para que o reino de Deus venha a nós. Se Jesus nos ensinou a orar dessa forma, devemos viver o reino, começando na vida terrena. Quando vivemos limitados ao que é terreno, colhemos decepções, pois os sonhos são frutos da nossa vontade e do nosso querer. Muitos deles podem até se realizar, mas mesmo assim nos frustramos, pois percebemos que eles não atendem aos anseios da alma.

    Para Pedro o sonho havia acabado. Ele estava sonhando o sonho de Deus, mas ainda não havia compreendido a dimensão de quem era Cristo. Isso provavelmente teria acontecido com qualquer um de nós se estivéssemos em seu lugar. No momento no qual decidiu voltar a pescar, que era sua profissão, ele tinha certeza que o sonho acabou. Mas não; quando investimos no sonho de Deus, o sonho não acaba. O de Pedro também não acabou e um pouco mais tarde ele entenderia tudo. A vida dos apóstolos não foi nada fácil e a nossa também não é, e nunca será. Investir no sonho de Deus é sinônimo de vida feliz com final feliz, mas não de uma vida tranqüila isenta de dificuldades. Muitas vezes temos até mais dificuldades, pois nadamos contra a maré e, como tal, temos que nos posicionar contra o sistema dominante. Mas o sonho de Deus nunca nos frustra. Assim como Pedro, podemos não entender ou pensar em desistir, mas se levantarmos nossos olhos para o que vem do alto perceberemos que temos que perseverar. Logo entenderemos que a estrada prossegue e o sonho não acabou.

    Quando estamos no caminho certo, nossas percepções de frustração e derrotas são frutos de compreensão parcial do reino de Deus. É impossível compreendê-lo integralmente, pois vivemos uma realidade onde estamos limitados pela imperfeição da queda. Para a concepção humana, o final feliz é quando tudo termina da forma que esperamos, mas dificilmente é assim.  A morte é o maior exemplo disso. Nenhuma pessoa com a mente sã quer morrer. Mesmo para a grande maioria dos que crêem em Deus e na vida eterna, a morte não é algo desejável pois parece um fim; o fim de um sonho. Ou seja, a vida terrena dificilmente termina como queremos.

    Sendo assim, para que nosso sonho não morra, temos que dar alguns passos: sonhar o sonho que Deus tem para nossa vida, saber que o reino de Deus vai além de onde nossos olhos vêem e ter fé que Deus está no controle da nossa vida e que ele vai nos encaminhar para realizar o seu propósito. Quando conseguimos encarnar essas realidades na nossa vida, nosso sonho nunca morrerá. Até mesmo no momento mais difícil da vida de cada um de nós, na morte, descobriremos que o sonho não acabou, mas que ele está apenas começando. Por isso, viva e sonhe pois ele nunca acaba.

  • SOMOS UM EM CRISTO?

    Minha esposa tem cerca de trinta anos de experiência no trabalho na saúde pública. Com  um currículo invejável, ela passou praticamente  vinte anos coordenando equipes de trabalho. Ela esteve à frente de diversas equipes e uma característica de seu trabalho é conseguir aglutinar a equipe, que acaba trabalhando como um verdadeiro time. Havia uma unidade de saúde que apresentava os piores resultados de toda a regional a qual pertencia. Minha esposa foi convidada a assumir essa equipe e aceitou o desafio. Cerca de quatro anos mais tarde, quando foi remanejada para outra unidade, a entregou como a de melhores resultados entre as doze unidades que faziam parte daquela regional.

    Quando assumiu o desafio, a equipe estava totalmente desunida e havia muita disputa entre os funcionários. Todos estavam lutando sozinhos, tentando trabalhar isolados, buscando conquistar seu espaço. Isso gerava muita disputa entre todos e um ambiente extremamente competitivo. O ambiente era permeado de brigas, inveja, fofocas e um tentando derrubar o outro. Era o famoso “cada um por si e Deus por todos”. Ela começou com um trabalho individual, melhorando a auto estima de cada um, a aceitação mútua e aos poucos foi promovendo a união da equipe. Os integrantes da equipe começaram a se ver como parceiros, e não como rivais, e com o passar o tempo o ambiente tornou-se amigável o que resultou em qualidade de trabalho muito melhor.  Acho essa habilidade a minha esposa inspiradora.

    Olhando para as igrejas lembro do ambiente que minha esposa encontrou ao chegar àquela unidade de saúde. São pessoas que se encontram nos cultos, sentam-se lado a lado, levantam suas mãos para louvar ao Deus, muitas vezes até mostram muita reverência, que até dizem que se amam, mas não querem se envolver com a pessoa que está a seu lado. Seu relacionamento é meramente religioso e não pessoal. Conheço pessoas de diversas igrejas e praticamente todas elas dizem que a realidade em sua comunidade é exatamente essa. Boa parte dessas pessoas se sente sozinha e que não tem verdadeiros amigos e quando precisa de ajuda não tem a quem recorrer. Parece que a igreja está atendendo ao chamado do mundo, que chama o homem para uma vida egoísta; o chama para conquistar bens que satisfaçam tudo aquilo que deseja, pois o que  importa é sentir-se bem. O mundo os chama para conquista muito dinheiro para conseguir respeito. Só que esse respeito é pelo que tem e não por aquilo que é. Isso pode ser considerado respeito? Relacionamentos são cada vez menos relevantes, e as “coisas” são muito mais importantes que pessoas. Cada vez que se conquista uma satisfação, surgem novas necessidades, e lá vai o homem correndo atrás do vento. Esse é o chamado do mundo. E é só olharmos a situação do homem para vermos para onde esse chamado o leva.  Infelizmente essa é a realidade vivida por muitos cristãos. Como já citei, essa é uma percepção pessoal, e também o testemunho de muitos conhecidos meus.

    Ao que parece, a igreja está tomando a forma do mundo e não consegue mais desempenhar seu papel na sociedade. Relacionamentos profundos, baseados nos princípios de Deus são cada vez mais raros. Um encontro agradável entre amigos foi sendo substituído por meros telefonemas, e agora nem ao mesmo se quer perder tempo ouvindo a voz do “amigo”; agora são só palavras trocadas nas redes sociais. Não tem mais o olho no olho, não se ouve mais a voz dos irmãos; só frias palavras trocadas em gélidas redes sociais que promovem a fragmentação da igreja, que aos poucos se torna uma igreja virtual. Pastores e líderes estão mais preocupados com a saúde da instituição chamada igreja, do que com a saúde das pessoas que são a verdadeira igreja. Do outro lado, pessoas buscam pastores que as levem para caminhos que elas mesmas querem, do que os verdadeiros pastores que mostrem os caminhos indicados por Deus. Da mesma forma que o homem do mundo corre atrás do vento, a igreja corre através do tempo brincando de ser igreja.  Essa percepção é muito negativa? Talvez até possa ser, pois às vezes nossos olhos podem nos trair. Mas o que não nos trai é olhar para a marca que a igreja está deixando na sociedade brasileira, que não é muito diferente daquilo que meus olhos, talvez exagerados, vêem.

    Mas quando olho para o capítulo 4 da carta aos Efésios, vejo o que a igreja deve ser; vejo o sonho de Deus para cada um de nós e aquilo que, como igreja, podemos e devemos ser. O apóstolo nos chama a vivermos em unidade, baseados naquele que é a razão da nossa existência, Cristo. A mensagem desse capítulo é a unidade do povo de Deus. O que nos une deve ser muito maior e mais relevante do que o que nos tenta separar. A única forma da igreja sobreviver e fazer seu papel na face da terra, é manter-se unida. Não unida por dogmas ou liturgias, mas sim pelo amor. A única forma que eu e você temos de viver uma vida que Deus tem para nós, é mantermos uma vida em comum, praticando os “uns aos outros”.  Viver em unidade é algo que vai radicalmente contra aquilo que é proposto pela modelo dominante. Mas o resultado também é totalmente oposto daquilo que o homem tem experimentado, vivendo em seus próprios caminhos. Aquela corrida atrás do vento é substituída por uma caminhada firme em direção a uma realidade muito maior do que a mente humana consegue sonhar.

    Mas é necessário mais do que esperar uma passe de mágica, para que tenhamos uma vida em unidade. No escrito aos Efésios, Paulo nos mostra atitudes práticas necessárias para uma vida comum. Ele salienta que viver em comunidade não é algo fácil e que demanda um grande esforço. Devemos ser completamente humildes. Humildade é uma atitude essencial para uma vida em comum com outras pessoas, de forma saudável. Humildade é uma atitude que só os fortes tem e que é essencial para a própria vida cristã. Afinal, é a partir de uma postura humilde que reconhecemos nossa situação diante de Deus. Através da humildade é que percebemos nossa dependência de Deus. Se há algo o que tenho dificuldade em aceitar, é um cristão ser arrogante e manter sua atitude de arrogância. Será que uma pessoa que tem essa atitude e diante do seu semelhante alguma vez realmente se humilhou diante de Deus? Como pode haver alguém que é humilde diante de Deus e arrogante diante dos homens? Se realmente queremos viver como igreja, não podemos aceitar a arrogância ou falta de humildade em nossa vida. Paulo também nos chama para sermos pacientes, dóceis e para suportarmos uns aos outros. Dar suporte demanda uma atitude de se doar. É dar parte de seu tempo e até de si mesmo para amparar aquele que não consegue mais caminhar com suas próprias forças. É gastar tempo estando a seu lado, ouvir, compreender, abraçar e se necessário carregar até que suas forças sejam restabelecidas. A questão é: estamos dispostos a ter essas atitudes? Temos a tendência de esperar que os outros promovam a mudança e a partir disso vestimos a camisa, mas não vemos essa dinâmica em lugar algum da Bíblia. Somos convocados a agir. Estamos dispostos a dar o primeiro passo e continuar a caminhada independente do que os outros façam?

    Um detalhe interessante que Paulo aborda acerca da unidade da igreja, é que ela não é uniforme. Trata-se de unidade e não uniformidade. Os cristãos partilham de muitos elementos em comum, objetivos e princípios iguais, mas Deus nos criou diferentes uns dos outros. Há diversos temperamentos, personalidades, entre outras características, o que pode enriquecer muito a vida em comunidade. Mas a falta de aceitação mútua nos separa dos nossos irmãos. Conheço líderes, dos quais ouvi dizeres como: “Eu me recuso a trabalhar com pessoas que tenham determinado temperamento”. Em outras palavras, esse “líder” simplesmente não aceita o seu semelhante da forma que Deus o criou. Ou seja, não aceita a criação de Deus e essa atitude evidencia uma total falta de habilidade, ou talvez até mesmo de vontade, de uma vida em comunidade. Conviver com a diversidade é muito enriquecedor, mas desde que haja humildade para a aceitação daqueles que não são como gostaríamos que fossem. Não aceitar a pessoa como ela é vai contra o mandamento mais importante; não aceitar a pessoa como ela é, é não amar.

    A vida em unidade não é algo facultativo, mas sim imperativo. Como filhos de Deus não somos perfeitos, mas o mínimo que devemos ter é atitude. Ser filho de Deus é reconhecer as falhas e não ficar passivo diante das limitações esperando a consumação da redenção. Ser filho de Deus é ter atitude e lutar arduamente contra a própria imperfeição. É crucificar o ego e deixar que Cristo desenvolva seu caráter na nossa vida. Não espero encontrar a perfeição em ninguém. Mas também não consigo enxergar o caráter de Cristo na vida de pessoas arrogantes e que não são capazes de abrir mão de si mesmo, nem sequer de suas opiniões, para promover uma vida de unidade entre os irmãos. A unidade que Deus quer que seja vivida em sua igreja é um privilégio do qual podemos desfrutar. Se nos recusamos a viver essa realidade, estamos afirmando para Deus que também não queremos essa unidade na vida eterna. Não desenvolver uma a unidade da igreja é dar as costas ao paraíso.

  • JESUS REVOGOU A LEI? – 2ª parte

         Na primeira parte desse texto vimos alguns aspectos da lei de Deus que nos trouxeram alguns elementos que nos auxiliam na compreensão da questão proposta. Conforme citado, a lei mosaica era a aliança que Deus estabeleceu com a humanidade, e com a vinda do Cristo foi estabelecida uma nova aliança, invalidando a anterior.

         Em alguns aspectos há uma aparente contradição no discurso de Jesus e de Paulo acerca da lei. Em momento algum vemos Cristo menosprezando a lei. Como já citado, ele mesmo afirmou que veio para cumprir a lei; ele legitimou a lei de Moisés. Não poderia ser diferente, pois ele veio como homem e sendo judeu deveria submeter-se à lei de Deus. Mas as epístolas de Paulo são permeadas de mensagens que colocam a lei em segundo plano, e até mesmo a tratam como algo praticamente obsoleto.

         Em diversas oportunidades Jesus exaltou a importância da lei. Em seus discursos ele sempre fazia referência à lei. Ele mostrava que seu discurso estava de acordo com a lei de Moisés e há inúmeras passagens bíblicas onde  Jesus se refere à lei, e em todas elas ensinou a guarda da mesma. Uma delas é no sermão da montanha, que é considerado como sendo a essência da mensagem de Cristo. Em Mateus 7,12 ele disse:

     “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas”.

     O que ele pregava no sermão do monte não era textualmente o que os profetas ensinavam, mas estava de acordo com a mensagem da lei que eles trouxeram. Dessa forma Jesus está validando a lei dos profetas. A grande diferença entre a atitude dos fariseus, que foram duramente criticados, e de Jesus, era a forma que ambos se relacionavam com a lei e com os homens. Em sua maioria, os líderes religiosos da época, lançavam seus esforços em prol da lei, enquanto que Jesus amava os homens, mas sem desprezar a lei.

         Em outra ocasião, quando interpelado por um jovem rico que queria saber o que haveria de fazer para herdar o reino dos céus, Jesus respondeu que deveria guardar a lei. Com a resposta do jovem, que ele já a guardava, Jesus complementou a resposta acrescentando a atitude necessária para que o jovem chegasse a Deus. Ele deveria colocar Deus acima de tudo em sua vida.  Ele deveria priorizar Deus, e depois viver na vontade de Deus, que não deixa de ser a guarda da lei. Ou seja, Jesus trouxe algo a mais que o discurso farisaico, mas em momento algum afirmou que a lei era desnecessária. Esse texto é de suma importância, pois trata da relação entre a salvação e a lei.  A entrega total da vida a Deus é a reinterpretação da lei mosaica. É isso que Cristo disse ao jovem. Mas isso não quer dizer que Cristo o tenha liberado da guarda da lei. Em Lucas 10:25 vemos uma ideia que complementa esse texto. Aquele que guarda o maior dos mandamentos, amar a Deus acima de tudo, também considera a lei como a vontade de Deus para sua vida. Esses dois textos estão intimamente ligados. É difícil conceber a ideia de uma pessoa que realmente vive para Deus, e que simplesmente despreze sua lei.  Essa ideia também é compartilhada pelo apóstolo João. Cristo reinterpretou a lei, trazendo um novo mandamento; o amor a Deus sobre todas as coisas e o amor ao próximo como a si mesmo.

         Mas há um detalhe importante que devemos considerar. Podemos dizer que nos aproximadamente três anos do mistério de Cristo, a humanidade passava por um período de transição. O Messias estava sendo revelado, mas sua obra ainda não havia sido concluída. Ele iniciou um processo de mudanças revelando de forma mais palpável o Reino de Deus. A nova aliança foi sendo consolidada durante três anos, e foi um processo gradativo. O ministério de Jesus só foi consumado na sua ressurreição. Durante seu ministério as leis sacerdotais e morais, ainda eram válidas. O fato do véu do templo só ter sido rasgado no momento da sua morte, evidencia o fato que só a partir daquele momento ele passou a ser o único sacerdote que nos representa diante do Pai. Entendendo isso, fica mais fácil compreender porque Jesus nunca falou contra a lei mosaica, pois naquele momento ela ainda era legítima. A partir do momento em que a obra messiânica foi consumada, a lei sacerdotal não tem mais sentido, perdendo sua legalidade. Agora a questão passa a ser a situação da lei moral, que são os dez mandamentos.

         Com um discurso que aparentemente diverge de Jesus, o apóstolo Paulo parece ser um crítico da lei. Podemos achar que seu discurso é incompatível com o do Messias. Na realidade ambos falam a mesma coisa mas de formas diferentes. Cada um deles aborda um aspecto da lei. Temos que lembrar que a maioria dos Judeus não reconheceu Jesus como sendo o Messias, e dessa forma permaneceu sob a aliança mosaica mesmo depois da vinda do aguardado redentor. Foi isso que moveu Paulo a abordar a questão da lei de forma diferente que Jesus. Em vários textos paulinos vemos que a lei não é capaz de justificar o homem. Talvez um dos textos mais explícitos seja Gálatas 3,11, onde lemos que somos justificados pela fé e não pela lei. Em outras palavras, a lei não pode nos salvar. Não o pode simplesmente pelo fato de não conseguirmos cumpri-la integralmente. A ideia de Paulo é que a lei apenas revela o pecado do homem. E quando ele se refere à lei, está se referindo também à lei moral. Isso fica claro quando atentamos para um detalhe que encontramos em Romanos 7,4-7. Paulo afirma que morremos para a lei e somos libertos dela. Ele continua afirmando que a lei não nos justifica, mas traz a consciência do pecado e exemplifica com a cobiça que é justamente um dos dez mandamentos. Fica claro que não adianta tentarmos seguir os mandamentos que não é isso que resolverá nosso problema. Foi exatamente isso que Jesus disse ao jovem rico. Como o homem não consegue guardar a lei em todos os seus aspectos, há a necessidade de algo mais, algo perfeito, para regatá-lo da quebra dessa lei. Imaginemos uma situação utópica. Vamos supor que a partir de certo momento, alguém consiga guardar toda a lei, ou seja, consegue não pecar mais. Mas isso não resolve seu problema pois essa guarda da lei não é suficiente para apagar os erros do tempo que ela não era guardada. Ou seja, a guarda da lei não produz salvação. Como podemos ler em Tiago 2:10, quem quebrar apenas um dos mandamentos quebra a lei como um todo. Na realidade os dez mandamentos não são dez leis, mas apenas uma. O que Paulo ensina pode parecer como sendo uma anulação da lei, mas na realidade ele afirma que a guarda da lei foi revogada como aliança entre Deus e os homens.

         Isso fica mais claro quando compreendemos a mensagem de Romanos 10:4, onde lemos que o fim da lei é Cristo. A palavra grega “télos” que é traduzida como “fim”, tem os mesmos significados que em português. Pode ser final ou término de algo, mas também pode significar objetivo ou finalidade. Como na língua mãe do texto essa palavra pode ter dois significados, simplesmente não podemos ter certeza absoluta o que o autor quis dizer. O interessante é que os dois significados se encaixam perfeitamente no contexto, e expressam uma verdade divina. Talvez por isso mesmo o autor tenha escolhido esse termo. O objetivo da lei realmente foi revelar Cristo. Toda a mensagem bíblica converge para o Messias e a lei foi preparando o povo de Deus para que reconhecessem o Messias e compreendessem sua obra redentora. Mas Jesus também pode ser visto como o final da lei, pois ele estabeleceu uma nova realidade. Agora a aliança não é mais pela lei, mas pela graça. Jesus Cristo realmente é o fim da lei.

         Em momento algum meu objetivo foi escrever um texto que resultasse de um estudo profundo sobre o tema. Trata-se apenas de uma breve reflexão após estudar um pouco mais a palavra de Deus. Pessoalmente acredito que podemos responder sim e não à pergunta se Jesus revogou ou não a lei. Sim, pois ele a revogou como uma obrigação de cumprirmos os mandamentos para expressarmos nossa aliança com o criador. A lei é incapaz de mudar nosso caráter e nos levar a Deus.  Não devemos cumprir a lei da forma que os judeus a entendiam e talvez entendam até os dias de hoje. E não, porque se não cumprimos os mandamentos para sermos salvos, mas os guardamos pois entendemos que isso é a vontade de Deus para nossa vida e que essa lei nos protege de muitas mazelas que podemos colher se fizermos algo fora da vontade da lei. A guarda dos mandamentos não é a causa da salvação, mas sua consequência.  Quem realmente conhece a Cristo sabe que a lei não muda seu caráter, mas também sabe que todo aquele que tem seu caráter transformado pelo sangue de Cristo guarda lei de Deus pois é um prazer andar em seus caminhos.  

     

    BIBLIOGRAFIA

    Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; Ed. Soc. Biblica do Brasil: 2005;São Paulo.

    BRUCE, F.F. – Comentário Bíblico NVI; Vida; 2009; São Paulo.

    CHAMPIN, R.N. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia; Hagnos: 2011; São Paulo.

    GINGRICH, Wilbur; DANKER, Frederick – Léxico do Novo Testamento; grego / português; Vida Nova: 2007; São Paulo.

    HAHN, Eberhard; BOOR, Werner de – Cartas aos Efésios, Filipenses e

    Colossenses; Comentários Esperança;  Esperança; Curitiba; 2006.

    KAISER, Walter C. – Teologia do Antigo Testamento; Vida Nova; 2007 São Paulo.

  •  JESUS REVOGOU A LEI? 1ª PARTE

                      Talvez uma das questões mais intrigantes da Bíblia seja a seguinte pergunta: Jesus revogou a lei? Se há algo que aprendi nos 5 anos que me dediquei ao estudo acadêmico de teologia, é que não devemos dar respostas apressadamente. É claro que algumas perguntas propostas não requerem muita reflexão; em contrapartida há outras sobre as quais mentes brilhantes têm refletido por séculos, sem que se chegue a um consenso. Talvez a questão proposta não seja uma das mais profundas nesse sentido, mas é comum ouvirmos respostas divergentes. De um lado, a resposta mais óbvia, a mais “igrejeira” seja: “Ele não revogou a lei, pois em Mateus 5,17-18 ele mesmo disse que não veio revogá-la, mas sim cumpri-la”. Trata-se de uma resposta clássica, válida, da qual não estou necessariamente discordando. Mas do outro do lado há aqueles que, também baseados na Bíblia, entendem que Jesus revogou a lei, e se baseiam nos escritos de Paulo que desmistificam a lei, e também no próprio Cristo que trabalhou em um sábado, quando esse era um dos mandamentos mais importante de todos? Esses são apenas alguns dos argumentos nos quais esses entendimentos se fundamentam. Talvez essa questão possa parecer um tanto quanto periférica, mas acredito que seja de fundamental importância compreender essa questão, pois isso impacta no nosso relacionamento com Deus. Quando o assunto é lei, é necessário que se façamos uma análise um pouco mais ampla tentando compreender todos os aspectos que se relacionam com ela. Não sou nenhum especialista no assunto, mas por um bom tempo isso vem instigando minha mente, o que me levou a refletir um pouco.

    O relacionamento entre o homem e a lei sempre foi, e é muito tenso. Parece que nossa natureza tem dificuldade em seguir regras ou leis. Não podemos creditar isso à imperfeição humana após a queda, pois temos que lembrar que no paraíso antes da queda, Deus havia decretado somente uma proibição á raça humana. O homem ainda não estava corrompido pelo pecado, gozava de um relacionamento pleno com o criador, possuía a imagem e semelhança de Deus em sua forma mais completa e ainda era detentor da glória de Deus. Mas apesar de todos esses privilégios vivendo uma realidade perfeita, Adão e Eva optaram desobedecer a única regra que Deus lhes dera. Depois da queda a criação foi corrompida pelo pecado e a questão de se submeter à lei ficou muito mais crítica. Temos que ser sinceros em aceitar a ideia de que realmente não gostamos de seguir normas e leis. Em nosso íntimo há uma voz que nos faz viver uma máxima que diz: “desde que haja governo, eu sou contra”.

    Com a queda da raça humana, Deus, em sua infinita misericórdia, colocou em prática o plano para resgatar a humanidade. Para que compreendêssemos seu amor, Deus enviaria seu próprio filho para nascer como homem, mostrar o Reino de Deus de uma forma mais palpável, pagar o preço do pecado morrendo em nosso lugar, ressuscitando e assim vencendo a morte. Como Deus viria a encarnar como homem, era necessário que ele nascesse e Deus optou em criar um povo para revelar-se à humanidade. Passaram-se aproximadamente dois mil anos desde a criação, quando Deus chamou um homem de nome Abrão. Ele era natural de Ur e seu pai era um construtor de ídolos. Sabe-se muito pouco, ou nada, sobre a vida de Abrão antes do seu chamado, que ocorreu quando tinha aproximadamente 70 anos de idade. Considerando que seu pai construía ídolos, muito provavelmente, Abrão foi criado em uma cultura idólatra e pagã. Deus iniciou um relacionamento com Abrão, mudou seu nome para Abraão (que significa “pai de uma multidão”), e deu início ao povo que viria a revelar Jeová. Como a humanidade havia perdido seu vínculo com o criador e seguia o paganismo, Deus achou por bem começar a história, criando um povo com uma nova cultura, para revelar-se ao mundo.

    Abraão deixou sua terra, seus parentes para iniciar sua missão. Ele e seus filhos são os patriarcas da fé judaica e da cristã. Como Deus estava criando uma nação com uma cultura própria, era necessário que houvesse leis e regras, pois uma nova sociedade estava surgindo. E é aqui que começa a importância da lei. Uma das questões que temos que ter em mente, é que Deus foi se revelando progressivamente ao homem, à medida que este tinha capacidade de compreendê-lo. Da mesma forma que não é produtivo ensinarmos matemática científica para crianças que estão sendo alfabetizadas, o povo da época não compreenderia o plano de redenção se, de forma anacrônica, lessem os escritos paulinos, principalmente a carta aos Romanos. As leis que Deus institui no inicio da história do povo hebreu, tinham como função a regulamentação da sociedade, da vida religiosa e da vida moral.  O fato de algumas leis que Deus instituiu terem mudado, não indicam que ele tenha mudado seus princípios, mas sim, que em determinado momento, uma ou outra lei tornaram-se sem propósito. O apóstolo Paulo aborda essa questão na carta que escreveu aos Colossenses, no capítulo 2, versículo 22.

    Deus estabeleceu diversas leis, que foram compreendidas como regra de fé para o povo da época. Mas fazendo estudos mais aprofundados, chegamos à conclusão que a lei do Antigo Testamento pode ser classificada em relação a sua função. Como já foi citado, algumas leis eram civis, como a que temos hoje. Por exemplo: “olho por olho, dente por dente”, a questão das cidades refúgios, a responsabilidade de um irmão para com a viúva de seu falecido irmão, entre outras. Em outras palavras, tratava-se da constituição do povo judeu.  Havia também a lei sacerdotal, que normatizava a forma com a qual o povo vivia sua religiosidade. Era uma infinidade de normas que ditavam as regras de como sua fé e culto a Jeová deveria ser vividas. Essas leis que determinavam os sacrifícios, os dízimos, a questão do sacerdócio entre outras questões. Muitas delas já preparavam o povo para a revelação do messias. Como exemplo, temos a questão do sacerdote. Deus determinou que houvesse uma pessoa que seria o intermediário entre o povo e Deus. A figura do sacerdote preparava o povo para que ele compreendesse de forma mais efetiva o significado redentor de Cristo. Havia também as leis morais, os 10 mandamentos, que Deus deu para Moisés. Trata-se da vontade de Deus para a vida de todos os homens.  As leis civis e sacerdotais têm sua aplicação temporal, mas as morais têm outra aplicabilidade. Com raras exceções, talvez uma única, a guarda de um determinado dia a lei moral continua sendo a vontade de Deus para o homem até os dias de hoje. Como já foi abordado, parece que somos avessos à lei, mas temos que pensar que ela não foi desenvolvida para Deus mostrar sua soberania, mas sim para proteger-nos.

    Hoje compreendemos que toda a lei que Deus entregou ao seu povo tinha essas três funções distintas, mas na época o povo entendia essas leis como um todo, e que ela regulamentava a espiritualidade dos homens. Como exemplo, podemos citar a questão da proibição de comer carne de porco e de animais aquáticos que não tem escamas. Tratava-se de uma questão sanitária, uma vez que havia um risco grande do surgimento de doenças relacionadas a contaminação desses animais. Mas os judeus entendiam que se ingerissem esses alimentos sua vida espiritual seria prejudicada. Deus estaria rompendo relacionamento com todo aquele que ingerisse alimentos proibidos. Fazendo uma analogia para nossa realidade, seria algo como perdermos nossa salvação por beber água de um rio e não água tratada da companhia de saneamento. Olhando para a lei, ou melhor, para as leis, considerando sua função, abre-se um horizonte mais amplo na compreensão da questão de Deus e sua lei.

    No transcorrer da história, Deus fez várias alianças com o homem. Como o homem é falho, não conseguiu cumprir sua parte em nenhuma delas. Mas todas essas alianças foram uma preparação para a aliança definitiva, que é a consumada em Cristo. A aliança que Deus estabeleceu com seu povo através do profeta Moisés, tinha como elemento marcante a obediência à lei, que incluía os 10 mandamentos. Mas a salvação do homem não estava condicionada ao cumprimento da lei. Se fosse assim, ninguém se salvaria. A salvação sempre foi, e ainda é, pelo reconhecimento da nossa dependência de Deus, o arrependimento e confissão dos nossos pecados e de uma vida nos caminhos de Deus. Mas os judeus lançaram seus olhos sobre a lei. O cumprimento dela passou a ser mais importante do que o relacionamento que tinham com Deus. Ou seja, a aliança foi deturpada pelo homem e isso influencia a vivência da fé cristã até nos dias de hoje. Ainda existem cristãos, e até mesmo igrejas, que direta ou indiretamente, vinculam a questão da guarda da lei à salvação, mesmo em tempos nos quais usufruímos da graça da Nova Aliança.  Jesus morreu para restabelecer nosso relacionamento com Deus, e conforme textos do Novo Testamento, a lei não tem mais poder sobre nós. Mas será que isso significa que não precisamos mais considerá-la?

    Continua quarta!

  • SANTO OU PROFANO

    Gosto muito de frases reflexivas, posto sempre em meu Facebook, independente se o autor da frase é cristão ou não. Em uma de minhas postagens um tempo atrás, uma amigo me falou para eu tomar vergonha na cara e parar de postar frases e começar a postar versículos bíblicos.

    Achei curioso o comentário e respondi que a verdade é verdade, independente se está na Bíblia ou não, ou de quem falou. Para quem lê o meu blog, já notou que em meus textos, além de usar a Bíblia eu uso também frases de diversos autores que esboce de forma clara uma boa opinião sobre o assunto no qual estou abordando. Penso que a verdade é uma só, e seja quem falou, se é uma verdade, ela não vira algo incorreto só porque o indivíduo não é cristão. Afinal, como entender o que é santo e o que é profano? Ou o que é de Deus e o que é do diabo, como alguns dizem?

    Paulo no Areópago, usou autores pagãos quando estava pregando (Atos 17:11). Isso sem contar Jesus, que conviveu com prostitutas, cobradores de impostos e não se preocupava em andar neste meio, o que ele se preocupava era com as vidas que precisavam de sua ajuda.

    Um dia um colega me confrontou, por eu ter “um estilo diferente”. A forma que eu me vestia não era a forma que um cristão deveria se vestir. Aí eu perguntei: amigo, onde está na Bíblia o estilo de roupa que devo andar?

    Não existe roupa evangélica, existe caráter cristão isso sim.  Penso que muitos se preocupam que roupa usar, que livro cristão ler, com que amigos cristãos andar e se esquecem de que ser cristãos não é usar, ler e ter, ser cristão é imitar Cristo, ser pequenos cristos, como a palavra significa. E a diferença entre o santo e o profano não é a aparência e sim o conteúdo.

     Afinal, se a música que você ouve não tem letras absurdas e anticristãs, porque não ouvir? Se o livro que você lê, te proporciona bons momentos de leitura, ou te leva a crescer em conhecimento, por que não ler? Se você tem amizades verdadeiras, por que não continuar cultivando, mesmo não sendo da igreja?

    Rotulamos muito o que é santo e profano, segregamos diversas pessoas, enquanto o mundo precisa que façamos diferença. E para fazer diferença no mundo temos que estar lá, conviver com pessoas, entendê-las, ajudá-las, acompanhá-las.

     Um dia uma pessoa me falou que não ouve musica secular porque a música secular é consagrada ao Diabo, e a música cristã é consagrada a Deus. Como se o rótulo cristão já seria um selo para saber o que é consagrado ou não.

    Não conhecemos o coração das pessoas, seja um cristão fervoroso, um pastor ou sei lá quem. E se o rótulo gospel denomina algo de Deus, aí temos um grande problema. Pois tenho ouvido inúmeras musicas cristãs exaltando o ser humano, ou os seus desejos e prazeres. E muitas músicas não cristãs falando sobre a vida, experiências, ou ensinamentos.

    Não ouço uma música ou leio um livro por seu rótulo e sim pelo conteúdo e pelo ensinamento que aquele material pode me oferecer. Respeito quem não gosta de ouvir música secular, respeito também quem só lê livros cristãos, se você prefere seguir este tipo de posicionamento, ótimo. Só não julgue quem não age assim.

    Pois ser cristão é levar a vida imitando Cristo, seguindo os seus mandamentos e fazendo a sua vontade (João 14:21) e não usar roupa com versículos Bíblicos, ou só ouvir música Cristã.

    Ser cristão não é ter um rótulo e sim um posicionamento, um estilo de vida, onde Cristo é o centro de tudo.